26 de fevereiro de 2009

Reflexo

Ontem te fiz meu espelho.

Me enxerguei com seus olhos

refletidos nos meus,

e parei no seu tempo.

Um fulgor exalou em meu peito

um samba de amor,

quase meio sem jeito,

mas com ar trovador.

Sofredor,

fiz do amor, argumento

pra viver um viés sonhador.

Cantador,

fiz do samba, instrumento

pra calar todo o pranto da dor.

E amei, quando vi em seus olhos

os meus olhos de quem acordou.

Renasci, como surgem os enredos

que traduzem segredos

com intenso esplendor.

Morri, de um amor sorrateiro

pra cantar noutros cantos

outros cantos de amor.

E voei, quando vi minhas frases

beijarem sua boca,

nota por nota,

em verso e prosa

de um samba canção.

Dizem que o amor se renova

depois que os dias se vão

e a dor vai embora como quem nunca chegou.

Com o vento vem o sufoco e a demora

de não saber a hora nem a cor

da angústia que se incorpora

na ansiedade do que está pra chegar

ou ainda não se encontrou.

Dizem que a espera é reflexo da saudade

e a esperança é morrer de amor.

25 de fevereiro de 2009

Espelho

Vi nos teus olhos meus olhos em ti.

Guardei o sorriso,

qualquer traço do rosto,

e a boca calada.

Mas de nada foi preciso,

de nada.

Nem uma frase,

um sopro,

uma piscada,

somente nada.

O acaso se deu ao trabalho,

trouxe no orvalho

o tempo de ontem,

o cheiro, a cor, o som...

A vida em retalho.

A imagem de outrem

numa mesma paisagem.

O vento me deu o atalho.

Te sinto de perto bem longe.

Te enxergo longe bem tarde.

Te espero nos sonhos da noite.

Te quero pra ter minha paz.

E fico pensando em imagem

um samba de leva e trás.

Tua estrada é minha viagem.

Seu trajeto é meu tempo que faz.

De resto, espero outro ontem

pro amanhã chegar nunca mais.

E a esperança de ser tudo de novo

quando o começo não teve um fim.

Faço do tempo e espaço meu sempre.

Vi nos meus olhos teus olhos em mim.

17 de fevereiro de 2009

Livro da Escuridão

Tudo o que vivi

escrevi por linhas tortas

nos caminhos que percorri

com meu violão.

Não apaguei, nem desmenti nada

somente faço página virada

de um livro que consulto

sobre um vulto oculto

que envolve e afunda

na solidão profunda

do vazio de meu coração.

Escrevo tudo em tom de tristeza

pois a vejo com beleza,

como faço quando quebro um galho seco

junto às folhas mortas vivas pelo chão.

Faço da dor minha verdade

e colho em felicidade

tudo o que sofri,

tudo o que perdi,

tudo o que não vi

e tudo o que vivi em solidão.

O rio da minha vida

escorre sobre a sombra

de uma árvore à margem

do livro da escuridão.

As folhas caem por sí só

e correm viagem

como notas de canção.

Tudo o que li foi passagem.

Tudo o que vi foi ilusão.